Tudo novo de novo.

Sexta-feira, Novembro 13

The Inner Light # 2

Um pouco do nada no meio de toda correria caótica da rua. Um pouco de escuro para apagar as luzes produtivas que cercam a cidade. Descendo a São Joaquim, ali está o templo budista, com suas telhas compridas e janelas opacas cercadas por uma grade vinho. Visto através das frias cercas de ferro, o ambiente pouco convidativo exibe suas colunas de pedra e pede um pouco de silêncio. Ao atravessar a porta que separa a espiritualidade do resto do mundo material, surge uma paisagem de flores, árvores, folhas caídas e cores alegres que dançam diante dos olhos.
Uma escada de madeira com degraus largos leva à sala de meditação. Sapatos largados na porta, o chão frio já de início indica uma experiência de disciplina. Tudo é silêncio, ele respira e transpira pelas calhas e embaça os vidros bem limpos. No escuro, é possível ver a silhueta elegante dos pilares, das esculturas e das prateleiras, que escondidas em um canto, abrigam uns poucos objetos esquecidos. O breu exibe uma aura dourada, de estátuas pintadas e do crepúsculo que se pode ver através das frestas das janelas.
O salão cheira a madeira e incenso. A calma e a paz dominam de tal forma, que por alguns minutos só há desespero, vontade de gritar e bater nos tambores. Necessidade de se movimentar, levantar, correr e falar. Mas os pilares grossos de madeira oprimem os desejos e calam uma última palavra, entalada na garganta e perdida no meio dos pensamentos. O silêncio escuro propõe o fim das atividades e preocupações desnecessárias. Surge apenas medo, medo sem fim da solidão que o barulho do silêncio provoca, da visão turva e sem movimento, do corpo inerte que imita cada pedaço do templo. As janelas e os pilares estão apenas ali, existindo. Só é preciso existir, também. Mas fica um medo infinito dos silêncios e escuros, medo de existir. Temor de não pensar, não precisar produzir para estar neste mundo.
Enquanto os pensamentos gritam desenfreados, todos os objetos têm seus olhos atentos, observando minuciosamente, para que não seja realizado sequer um movimento. O desespero e a necessidade de falar vão aquietando, acalmados pelo cheiro cítrico do incenso e acariciados pela almofada negra em cima do tatame. A mente começa a entrar, pouco a pouco, na dança estática das madeiras ao redor, com calmaria, gosto doce na boca e um arrepio que de repente surpreende a espinha. Nada mais importa. Só resta existir no silêncio, sem pensamentos ou desejos, deixando a mente branca e o corpo preguiçoso. Fica uma sensação de respirar o infinito, descobrir e entregar-se para o desconhecido. E ao abrir os olhos outra vez, as estátuas e prateleiras parecem ter mais brilho.
Ao voltar outra vez para rua, com suas luzes e carros e buzinas, os pensamentos novamente se perdem a correr da vista. O corpo move-se, porém ainda tem o ritmo do silêncio escuro do templo, com suas calmarias e elevações espirituais. Agora, é possível mover-se e falar. Mas não há mais o que ser dito, tudo é paz.

Quarta-feira, Outubro 14

Mystical One

"Cançãozinha para Cecília Meireles"

Suas palavras sobem e descem
O olhar acompanha as linhas em ordem
Mas o pensamento foge para longe, vai voar
Para encontrar Cecília além mar
Além do Céu e do tempo
No lugar de se simplesmente existir
O olhar escorrega nos versos quase sem rimas
Nas linhas sem métricas
No problema de simplesmente existir

Suas palavras deixam gosto alegre, de ser pura
De sutileza e doçura
Combina com a mirra que
em fumaça acompanha os ritmos
cadenciados da dança de Tchaikovsky

Mas as palavras de Cecília sobem e descem
No pensamento, sem esforço
Para simplesmente querer ser
Para se encontrar de novo e se perder
E então achar a trilha
De passos largos por Cecília já percorrida
E deslizar ao lado dela no infinito
Da poesia e da vida

Segunda-feira, Setembro 28

Lucy in the Sky with Diamonds

Um Ano de Blog!

*mais um da série: eu posto os textos que escrevo na aula do Welington*

Ela está parada ali, feito estátua, com suas roupas brancas, tão brancas quanto uma peça de mármore, em contraste com os cabelos que caem com delicadeza pela testa, formando pequenos círculos de ébano que emolduram a pintura de seu rosto. Ela está ali, com seu colar de pedras já gastas no colo liso, parada diante do mar ou da vida. A boca carnuda embeleza os traços simples e o nariz reto determina expressão e força. Contemplá-la significa dar vazão a seus olhos negros e profundos, que se esquecem na imensidão do horizonte. Ela está ali, com o brilho no olhar, com tanto a dizer e sem saber por onde começar. Contemplá-la é, ainda, perder a si e encontrar aquela réstia de luz no mar de seus olhos, como um fio de esperança a que se agarrar. Dá uma vontade de abraçá-la, como se faz com a criança assustada na hora de dormir. Seu olhar é melancolia. Sua imagem é pureza e calma. Ela está ali, contando com os olhos toda uma vida, mas ninguém quer ouvir. Seu retrato não chama a atenção. Parar e admirá-la é sentir uma certa tristeza. Atrás de sua figura, uma escada comprida e a bóia, que promete salvação. Salvar à sombra que se afoga em pensamentos e se deixa levar, distante, perdida e sem rumo. Contemplá-la é sentir um frenesi de cores que lhe faltam e desejar por um segundo poder repintar a cena, com azul e verde e vermelho e rosa e laranja e diamante e verde esmeralda. Esmeralda feito pedra preciosa. Feito a preciosidade de seus olhos. Verde como o grito de esperança que se vê nos olhos escuros. Ainda sobra vontade de contornar os belos lábios e os inclinar para cima, em um sorriso sem economias. Mas não há jeito de repintá-la. Ela está ali, parada e perdida feito estátua sem valor. Contemplá-la é aguçar a curiosidade e querer saber o que é que ela mesma observa com tanta devoção. Mas não há jeito. Algo no ar indica que nem ela mesma sabe o que vê. Ela está ali, mas não sabe disso.

Sábado, Setembro 26

A Day in the Life

Que coisa louca. Ainda acredito naquele lance de que não existem coincidências. O Pedro vem me pedindo para postar o texto do Abbey Road há uns seis meses, ou algo assim. E eu só enrolei, até agora. Acabou que passou tanto, até já tinha esquecido. Para hoje, marcamos nossa gravação do Podcast de Música, o Musicismos. E rolou a Expomusic, o que foi uma coisa do outro mundo, daqueles tipos de epifanias que vem e te fazem pensar em montes de coisas, como "quero fazer música, pelo resto da vida" e coisas do mesmo estilo. E só hoje, por causa do Podcast, resolvi dar uma pesquisada no Abbey Road e aí me dei conta que o álbum está completando 40 anos em 26 de setembro, o que significa exatamente HOJE! Como foi muito O Segredo, eu tive que parar e dar uma postada no texto que venho prometendo para o Pedro.
E olha só, estou escrevendo um post do estilo diário de menininha! Eu nunca faço isso por aqui, para que as poesias não precisem dividir espaço com minhas vergonhices bem pessoais. Vou me lembrar de não fazer mais isso por aqui.
E hoje, tive o dia mais musical de que consigo me lembrar.
E por hoje é só.

Sexta-feira, Setembro 18

Dear One

Aqueles olhos escuros, tão escuros quanto o fundo de um poço brilhavam como sol, grandes e profundos, protegidos por uma cerca espessa, longa e negra, como a muralha de pedra que define o contorno circular do reservatório de água, costumavam dizer em silêncio os sentimentos escondidos em alguma parte da alma.
Em cargas emotivas, cheias de energia e intensidade, aquele olhar negro gritava toda uma alma aparentemente em calmaria para o mundo. Da boca rosada e proporcional ao rosto fino perdiam-se risos sonoros e graúdos como os do Gato de Alice no País das maravilhas, mas poucas palavras saíam dali, inspirado na divindade indiana Sri Krsna a dizer apenas o essencial e valoroso.
Sobre os lábios, um bigode para seguir a moda da época e preencher o rosto magro e expressivo. Os fios de cabelo brilhosos caíam como cascatas por cima da testa, das orelhas e cobrindo a nuca, escuros em contraste com a pele tão branca. O nariz fino e reto acompanhava as maçãs dos rostos salientes e corpo delgado e alto, dando a todo o conjunto uma ideia de elegância. Os dedos compridos e leves sentiam as cordas de sua guitarra que gentilmente chorava.
O toque produzia o som harmonioso e afinado, enquanto ele deixava escapar as notas cantadas agudas e suaves como melro, tão tranquilamente quanto o monge prepara seu ritual de oração.
As roupas chamativas, coloridas, estampadas de inspirações indianas, de babados e calças de boca larga divergiam do jeito introvertido de menino discreto, caçula na família e na banda e tímido com o qual ficou conhecido. E tênis All star para provar sua alternatividade de astro de rock que parece até que não pediu para ser famoso e zelava pela preservação de sua imagem e privacidade.
As pernas fechavam-se uma sobre a outra em postura de yoge meditativo. Algo no jeito em que ele se movia expressava toda uma existência de paz. Seu ar continuava com a mesma delicadeza e melancolia. Tudo o que deixava de expor, todo o talento ofuscado pelos dois colegas compositores, um gênio e o outro galã, explodia em versos pelos dedos musicais e pelos olhos fundos, misteriosos, expressivos e atraentes.
Na capa mais famosa de discos, ganhou a fantasia militar vermelha. Rubra como ele mesmo, como uma cor que em silêncio grita e chama o olhar para si. Dos quatro Beatles, George Harrison foi o mais simples, o mais introspectivo e o menos lembrado, ainda que ao passar tenha deixado sua aura de sol, brilhante, alegre, acolhedor e amigável, mesmo sem precisar dizer ou provar isso.